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Testemunho de uma missão em Ocua
Escrito por Teresa Campos   

Como tem sido costume, no verão de 2011, os LBN enviaram para Moçambique cinco leigos, que durante o período de um mês, viveram lado a lado com a realidade de um povo, que acolhe, acarinha e ensina a olhar para a vida de uma “forma” diferente. O texto que se segue relata a experiência missionária de uma das voluntárias, a Teresa, que passou mês e meio em Ocua, província de Cabo Delgado.

 

 

Trazemos por vezes, dentro de nós, sonhos que um dia nos assaltaram e que repousam como que adormecidos… Vivemos uma vida sem nos apercebermos que esses sonhos se mantêm vivos, só à espera da oportunidade de despertar, à distância de um passo para se tornar em realidade. Foi assim que aconteceu comigo. Por estranho que me pareça agora, antes não tinha consciência de que me era possível viver uma experiencia, ainda que curta, de missão. Posso dizer que partir para África atraía-me, e estar disponível para ajudar pessoas com necessidades básicas e essenciais e contribuir para o bem-estar de alguém que precisa, sempre fez parte dos meus projetos.

 

Os Leigos Boa Nova tornaram esse encontro possível e de forma generosa e gratuita nos formaram e prepararam. Agradeço a dedicação a todo o grupo de formação. A experiência dos encontros de formação foi enriquecedora. Para além da formação proporcionada, os encontros permitiram o crescimento e convívio com outras pessoas que também se disponibilizaram para “partir”, largar o que têm e dar-se a outros. O nosso trabalho começou aqui com algumas dinâmicas feitas para angariar apoios para levarmos para onde tanto falta, e para assim aliviarmos um pouco as dificuldades passadas além-mar. Foi com muita energia e empenho que levámos a cabo algumas dinâmicas que constaram desde um concerto de solidariedade em S. João da Madeira, na participação nas barraquinhas da Cidade no Jardim com a venda de bolos, velas e sabonetes de cheiro, na venda de rifas e na recolha de materiais escolares e de saúde na minha paróquia de S. Roque. Tudo foi feito com o máximo esforço e dedicação para uma causa e um projeto que todos partilhavam. Muitas foram as pessoas que colaboraram com genuíno gosto e quiseram de alguma forma fazer parte deste projeto. No meu espírito partiram em missão comigo.

E bem depressa chegou a hora de viver a experiência tão desejada. Até lá procurei controlar as expectativas. Quando imaginamos situações que não vivemos, inevitavelmente criamos ilusões, das quais é preciso libertar para podermos aceitar e viver da melhor forma o que temos pela frente, para podermos receber a realidade sem ideias pré concebidas e da forma mais pura. Rapidamente percebi que ali tudo corria de forma um pouco diferente do que estava habituada e que seria mais difícil do que inicialmente pensava. Confesso que não tive muito tempo para pensar no assunto porque havia muito para fazer, pelo que, respirei fundo, deixei as minhas preocupações de lado, quebrei qualquer resistência que ainda tivesse e deixei-me guiar por Deus sem reservas… Que fosse feita a Sua vontade.

 

Em Ocua, mais propriamente em Mahipa a realidade é bem diferente da que conhecemos cá. Os problemas daquela numerosa população são bem mais vitais do que os nossos. Aqui os nossos problemas passam pelo muito trabalho, pelas preocupações com os nossos carros, casas, férias, livros escolares, presentes de Natal, com os cortes no orçamento em tempos de crise…

 

Em Ocua a população vive sem eletricidade, em habitações pobres, sem água em casa, precisam de caminhar durante horas para se deslocarem para qualquer lado, vêm-se crianças com vestuário muito pobre e sujo, têm alimentação deficiente, têm condições precárias em termos de saúde, não têm materiais e ferramentas para melhor os ajudar, a mortalidade infantil é elevada. A esperança média de vida lá é muito baixa sendo em parte devida à SIDA, um problema muito grave lá. São realmente problemas diferentes dos nossos os que aquela população tem. A realidade é muito diferente, mas a essência das pessoas é mais parecida do que pensei. Eu que adoro conhecer pessoas senti que a grande diferença reside na muita alegria que comunicam, na simplicidade, própria de quem tem fome de receber o que a vida tem para oferecer. É adorável ver o brilho do olhar das crianças quando nos veem, ávidas por receberem um mimo, e é bom ver a alegria com que somos recebidos pelas pessoas da comunidade. O acolhimento que senti por parte de todos prendeu realmente o meu coração.

 

De toda esta grande aventura, o melhor e o que mais guardo são mesmo as pessoas. Sei que corro o risco de ser injusta por não poder mencioná-los a todos e por não poder transmitir fielmente como cada um é especial, mas não os mencionar é deixar um vazio no centro do meu testemunho porque o essencial da minha vivência, o grande tesouro que recebi, foram eles. Cada um foi e é muito especial, a começar pela irmã Isabel que foi tudo para mim, pelo seminarista Benedito que se dá de uma forma lindíssima com uma energia e alegria tão contagiante, a Manuela, presidente da Ataca e a sua equipa que nos visitou, o padre Alexandre e irmão Godinho em Pemba que me receberam e fizeram sentir como se fosse da família, todos os padres e irmãs que tão afavelmente me aceitaram, o padre Crisanto, Desidério, assim como o Padre Jorge e irmão António que me receberam em Maputo, e tantos outros. A população também me acolheu de forma marcante. Tive a sorte de ter cruzado com pessoas que serão inesquecíveis para mim. Dentre eles estão os meus muitos “braços direitos” que encontrei junto daquela população tão querida para mim, como o grande amigo Faustino, a Fátima, o Torres, o Joaquim e o Virgílio, o Francisco, os catequistas e todo o meu inesquecível grupo de jovens com quem estive mais próxima, sem esquecer as populações que me receberam com o que tinham de melhor, e claro, as crianças com toda a sua alegria e simplicidade. É sem dúvida um grande motivo de orgulho para mim ter participado na vida deles, eu que tão pouco tenho para dar. Por eles rezo frequentemente e peço saúde, força, coragem e a graça de Deus, para que os proteja e lhes dê sempre a alegria que demonstraram enquanto lá estive.

Quanto à missão que me coube, posso dizer que tive muita sorte. Muito poderia contar acerca do que fiz, porque de facto ajudei a fazer de tudo um pouco, desde várias tarefas pastorais, o apoio à escolinha, ajuda no programa de distribuição de leite para bebes mais necessitados, passando pelo ensino de inglês e acompanhamento do grupo jovem de teatro nas suas atuações nas diferentes comunidades, acompanhei e ajudei em encontros e formações, como o encontro de vocacionados, como a formação de catequistas e formação de professores sobre o tema de HIV-SIDA e Educação sexual, acompanhei a irmã em varias deslocações e ajudei ainda nas diversas atividades caseiras, entre outras. Para mim foi um privilégio poder colaborar com a irmã Isabel na sua grande missão e nos seus projetos A irmã é uma grande mulher e missionária. Ela foi incansável e fez funcionar a missão, num momento mais difícil, com uma energia extraordinária, tendo conseguido levar a bom porto cada uma das atividades. Aqui lhe deixo uma palavra de admiração e de gratidão pela generosidade e paciência que teve comigo.

 

Fui de facto abençoada porque pude realmente fazer de tudo, numa terra tão bonita, rodeada de pessoas lindas, onde qualquer projeto se torna produtivo e marca efetivamente a diferença. Marcou-me sobretudo a gratidão e a abertura que todos têm para quem lhes dá um pouco, quer sejam crianças, jovens ou adultos. Há tanto para fazer e há tanta fome de receber, não só a nível material, mas há também uma vontade enorme em aprender. Eis um lugar fértil para quem se dá. A missão é lindíssima. Não me refiro apenas à beleza física, mas a toda a envolvência da missão. Comparo a missão com uma fogueira na noite escura que ilumina e dá vida ao que a rodeia. É de facto um verdadeiro lar acolhedor, esta missão que tem a assinatura das Irmãs Boa Nova. A elas cá ficam os parabéns pelo muito e bom trabalho que têm desempenhado.

 

O que recomendo? Recomendo a partida, o deixarmos tudo o que nos possa prender e perdermo-nos no meio de um mundo novo que nos quer e nos recebe de braços abertos e com grande brilho no olhar, para nos acharmos de novo. Recomendo a viver e amar com Deus sem reservas. Que coisa deliciosa, ter por missão amar, amar com Deus, dar e receber sem reservas. Uma grande ventura esta de ser missionário, cá ou lá.

 

O meu resumo: Obrigada, a tudo, a todos. Obrigada a Deus.

 
 

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